Crônica de uma mulher que experimentou sair de casa sem sua bolsa! (para os homens entendê-las!)



Aquele dia ela acordou cansada e não quis sair com sua bolsa a tiracolo. Saiu leve, livre e solta! Saltitante sentiu-se como um pássaro na leveza do voar escapado. E sorriu, pois nada impedia o seu caminhar por entre as ruas, multidões e caminhões. Que benção subir as escadarias do metrô sem ter sua bolsa prensada e muito menos no meio da turbe e dentro dos lotados vagões! Andou sem medo de assaltos ou roubos!

Estava enfim, a mulher livre das piores sensações que experimentava cotidianamente com sua bolsa a tiracolo.
 Lembrou-se com um sorriso furtivo dos maus momentos no banheiro público, onde tinha que manter sua bolsa equilibrada com com seu salto 15,  no desempenho do ato. Era alívio total! A mulher sentia-se a melhor das criaturas!

No entanto, no decorrer do dia, sentiu falta de seus mais valiosos pertences, não pôde trocar a cor de seu batom conforme o dia passava e isto era preocupante, pois estava sem seu necessaire de batons, brilhos e blushes como gostava toda mulher, retocá-los conforme o ambiente e luminosidade, por exemplo, quando saía à rua,  usava um batom com cor mais quente, já no ambiente do fechado e de iluminação artificial do escritório,  gostava de usar uma cor mais suave, não muito sensual.
Sentiu também falta de seu kit de linhas e agulhas, o que lhe possibilitava um arranjo acidental de um botão que lhe caísse no dia a dia, só de pensar na possível situação, entrava em pânico. Sentiu muita falta de seu porta-escovas, fio dental e enxaguante bucal, pois como iria mostrar dentes limpos e paladar aromático de hortelã nas cansativas reuniões? 
Sentiu falta e como sentiu,  de seu pente e escova para a escovação diária antes de uma aparição aos clientes que tinha como função dar boas vindas na empresa! Pensava o quão tinha sido tola, abstendo-se de seu porta óculos de sol, suas lentes autocorretivas, e seu óculos de leitura quando se cansasse das lentes. A mulher  entrou  em desespero quando necessitou dos números de seu CPF, RG, holerites, carteira de motorista (usada em operações da empresa).
 Arrependeu-se ao não ter trazido consigo o porta-absorvente, pois bem nesse dia percebeu que suas regras haviam começado, não podia ser! Seu celular foi esquecido, bem como seu Pager , ao precisar de seus contatos para fechar uma publicidade que lhe daria nome e respeito na empresa. Arrependeu-se amargamente de sua aventura.
Como entraria em casa sem seu controle do portão? E como aliviaria o vozerio  noturno do horário do rush, sem seu MP4 ? Já havia complicado sua entrada sem o molho de chaves do escritório, das salas de projeção e de sua sala.  Lembrou-se também que nesse dia tinha marcado uma lista de compras com coisas pequenas que faltavam em sua casa, como o Toddy diário de seu filho, bem como as fórmulas homeopáticas do tratamento de seu marido e as suas de emagrecimento. Arrependeu-se,  porque dentro da bolsa mantinha também da fatura de seu cartão com vencimento naquele dia, o que provocaria um gasto a mais no pagamento atrasado. 
Nada mais triste do que esta situação... Mas o pior ainda estava por vir, voltou para casa molhada, pois o guarda chuva que levava consigo, a espera das mudanças bruscas do tempo, também não o tinha trazido para sua salvação,numa chuva repentina,   e na correria para se esconder  da chuva, saltou-lhe dois botões de sua blusa secretária,  o que a forçou passar por muitas situações constrangedoras e enormes  "fius  fius"   dos homens de "cantadas deselegantes" nas ruas. 
Sentia-se nua, sem nome, sem lenço, sem documento, sem identidade, pois sua bolsa era seu tudo,  e no fim de seu dia nada sobrou dela, nada que não fosse apenas um enorme vazio existencial.

A Autora Zilda Palloni Somense - Blog Senso Crítico. 

1 comentários:

  • iriagotti | 28 de outubro de 2011 10:36

    Meu Deus Zilda ! Esquecer a bolsa em casa é um desespero total! Eu entraria em pânico, sem meu batonzinho...esse é só um exemplo.
    Noite de pesadelo, perde longe para esse tipo de coisa ! Bjs e parabéns ! Boa matéria.