Após leitura e
análise do artigo de Leandro Karnal “Veias fechadas da América Latina”, uma
análise do clássico de divulgação histórica da América Latina: As Veias Abertas
da América Latina, do autor uruguaio Eduardo Galeano, um jornalista-escritor.
Leandro Karnal, um historiador especialista em História da América, trouxe à
tona um debate enriquecedor sobre a tese que Galeano desenvolveu: a questão de
olhar a história da America pelo ângulo dos vencidos, e pelo ângulo da exploração
externa em sua trajetória. O que mais intriga Karnal, não é tanto as ideias
defendidas por Galeano na obra, mas sim o sucesso que a mesma alcançou entre os
leitores.
De acordo com ele, a leitura de Veias abertas da
América Latina, vem de encontro com a maneira que os sul-americanos enxergavam
sua própria história. Para provar sua tese, Karnal atenta primeiramente para o
ano que a obra Veias abertas da América Latina foi lançada, estávamos no ano de
1971, período tenso na historia do Brasil e de toda a América - Os regimes
militares pipocavam, e talvez esta uma grande razão para o sucesso da obra,
pois ia de encontro com o modo de pensar dos leitores - segundo Karnal muito do
sucesso da obra tem a ver com o pensamento da sociedade durante a Guerra Fria, de
que os governos militares aliados do capital internacional estavam permitindo a
exploração de nossas riquezas. Esta ideia de Karnal encontra ressonância com o
pensamento de Peter Drucker “o verdadeiro comunicador é o receptor. Ao escrever
é preciso perguntar-se: quem irá ler este texto?” Em que condições?”(Rogério
Lacaz-Ruiz). Dessa forma, faz todo o sentido observar que o sucesso de Veias
Abertas da América Latina, teve grande recepção, devido ao momento histórico
vivido na América, o próprio nome da obra segundo Karnal “... é uma metáfora do
título expressa esta tese central: a América Latina é um corpo com as veias
abertas, com seu sangue abastecendo “vampiros” da Europa e dos EUA. (in: Karnal,
L.; As Veias Fechadas da América Latina, 01/12/2001, www.ceveh.com.br, Revista,
SP, BRASIL (site atualmente desativado).
Para ele “o gosto
por uma obra ou a rejeição de outras mostra muito da forma como uma sociedade
age e pensa. Aquilo que é lido ou que não é lido mostra, com clareza, uma
gramática da percepção e os valores de uma época.” (ibidem, p.3) Demonstrando
assim que a obra representava a maneira de como os latino-americanos se enxergavam
naquele momento histórico de repressão e suspensão das garantias individuais do
cidadão em defesa do capitalismo norte americano, em plena Guerra Fria, e da
maneira como o norte americano e o europeu nos concebiam.
Leandro Karnal
nos mostra que a critica mais contundente ao livro de Galeano foi feita por
Plínio Apuleyo Mendoza (et alt), na obra intitulada Manual
do Perfeito Idiota Latino-Americano. Sendo uma critica neoliberal e de estilo
panfletária encontrou grande aceitação. Os autores não aceitavam a ideia de
Galeano quando afirmava que a America Latina sempre tinha perdas em relação ao
comércio internacional, para eles o comércio beneficia a todos, inclusive a
organização do Nafta é citada como um exemplo favorável de beneficiamento
mutuo. Segundo os autores de O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano “...
seria tudo isto derivado de um “horror ao mercado” e a ignorância dos
mecanismos de flutuação dos preços neste mesmo mercado. ”Leandro Karnal afirma
que os autores do Manual afirmam que se um país souber aproveitar as
oportunidades inteligentemente, serão beneficiados, citando os casos de Estados
Unidos e Nova Zelândia. Enfim, Karnal simplifica as duas obras oponentes a
partir das ideologias de Adam Smith e Marx, pois é uma luta visível entre as
mesmas nos autores das duas obras: Veias Abertas da América latina e Manual do
perfeito Idiota Latino-Americano. E numa
terceira critica, Karnal aponta o maniqueísmo de Galeano quando trata na obra,
“... índios/espanhóis; ricos/pobres; latinos/anglo-saxões etc é uma das chaves
do sucesso da obra.” (ibidem, p. 5).
De acordo com
Leandro Karnal, este é o pior problema da obra de Galeano, pois faz uso o tempo
todo, de uma retórica “... quanto a retórica é o único objetivo, temos
problemas como o anteriormente citados e a submissão de toda a análise às
frases bombásticas e às ideias de efeito. (ibidem, p. 7). Karnal acredita que
ele utiliza este estilo a fim de comover o leitor para a exploração dada na
construção histórica da América, desde sua colonização. Como se na história da
América nunca tivesse havido lutas e organização dos “vencidos” contra os
“vencedores”. Leandro Karnal finaliza o artigo declarando que tratar a história
da América Latina desta forma esvazia as possibilidades de enxergar suas
contradições cotidianas que impulsionam sua construção histórica e não apenas dando ênfase às forças externas como
responsáveis pela construção da mesma.
Apontaremos
nesta análise, o capítulo 3 “Os americanos lutam por liberdade”, do livro
didático Projeto Araribá: História / organizadora. Editora Moderna; obra
coletiva concebida, desenvolvida e produzida pela Editora Moderna; editora
responsável Maria Raquel Apolinário. – 2 ed – São Paulo: Moderna, 2007. O
título e subtítulos clareiam a opção ideológica dos organizadores de mostrar
que a independência da América foi conseguida graças a organização dos povos
americanos, que submetidos a exploração colonial, participaram ativamente desse
processo, analisa desde os levantes dos povos nativos liderados por Tupac
Amaru, descendente inca que liderou uma das primeiras revoltas indigenistas do
Peru.
Não inicia o
estudo, como se vê em vários livros a partir da independência norte americana,
mas ao contrário, inicia com os movimentos dos países do sul, passando para a
America do Norte, atentando para o fato de Bolívar buscar uma unidade da
América hispânica.
O livro
desenvolve outro tema, cujo título México Livre, apoiado por imagens como o
quadro de Juan O´Gorman(1961), em que se vê o padre Miguel Hidalgo como líder
da independência mexicana. No mesmo capítulo,
analisa os processos de independência na América Central, evidenciando a
participação da população, inclusive o papel de índios e escravos, que começavam
a aproveitar o movimento de independência instalado para se revoltarem, fazendo
assim a Elite proprietária tomar a liderança da independência em seu favor. Num
boxe de leitura, pede-se que o aluno perceba a política intervencionista
americana nesse processo. Os exercícios realçam este resgate das lutas
populares no processo de independência latino-americano e da herança do período
colonial: contrastes e desigualdades.
Para
finalizar, o livro tem um apêndice de capitulo chamado “Em foco”, cujo título nos
dá a dimensão da posição dos autores quanto à independência latina americana:
Os indígenas na América independente, questionando-a, explicando os resultados
da mesma para as populações indígenas – suas estratégias de resistência e a
vitória da “civilização” (grifos dos autores) sobre as populações indígenas,
vistas como bárbaras, apresenta também formas que os grupos indígenas latino-americanos
encontraram para subsistir, como a organização de mercados para intercâmbio
econômico entre eles, inclusive devido a isolação de sua população, conseguiu a
façanha de manter-se incólumes à Revolução Industrial e os efeitos da
globalização começa evidenciar devido a presença de artigos chineses e artigos
de origem paraguaios.
Percebemos
enfim, que a linha histórica seguida pelos autores do livro Projeto Araribá,
evidencia mais a luta e resistência dos povos ameríndios, do que a submissão
política ao branco ou ao capital. Mostra
que a independência não foi uma luta causada pelos ideais iluministas europeus,
como vários livros assim o fazem, mas que a população indígena e líderes
latino-americanos nativos são os responsáveis pela independência, e
consequentemente pela construção histórica latino-americana, contrapondo assim
a visão de Galeano, de que apenas as forças externas movimentam a história
latino-americana. Enaltece a ação dos povos indígenas, que na visão de Galeano
são os vencidos. No livro percebemos nitidamente a ideia de que os indígenas,
mesmo sendo excluídos de participação política, resistiram e ainda resistem no
processo histórico da América. O livro Projeto Araribá evidencia uma ideologia
relacionada a este pensamento de Leandro Karnal: “... A análise da recepção
desta obra mostrar como as ideias na América Latina ingressam mediante sua
representação retórica e seu apelo. Não se trata de dizer,como se dizia
outrora, que temos uma efetivação “imperfeita” das ideias europeias, como o
Liberalismo, por exemplo, mas que apreendemos o Liberalismo de uma maneira
distinta daquela que o gerou na Europa. Da mesma forma que o Socialismo
Marxista, o Anarquismo, o Catolicismo e vários ismos, as populações da América
Latina interagem de uma forma muito variada com estas matrizes teóricas
clássicas, em parte pela tradição indígena de integração de legados culturais.”
Notamos também que o livro Projeto Araribá destaca a participação das nações
indígenas da América Latina no processo de independência, apesar de deixar
claro que os mesmos foram excluídos. É preciso estar atentos para não incorrer
neste erro conceitual feito por Galeano de mostrar os indígenas, como
submetidos ao domínio externo, visão de vencidos. Como nos afirma Leandro
Karnal, referindo-se a obra de Galeano, “... Por fim, há no livro toda uma
ideia de um passado mais glorioso. O último parágrafo fala da “reconstrução da
América Latina”. Esta reconstrução pressupõe que tenha existido um período
construído, de prosperidade e maior justiça. Como não o foi o período colonial
e o independente, só podemos estar diante de um elogio ao período indígena
pré-colombiano. Este é um dado comum a vários analistas. Nenhuma contradição
estrutural é atribuída ao período pré-colombiano. A imensa expansão imperial
inca, o domínio da Federação encabeça por Tenochtitlán sobre A Mesoamerica e
outros fenômenos não são destacados na sua violência, na exploração de povos
conquistados mediante tributos ou na imposição cultural.”
A autora: Zilda Palloni Somense